À que lugar se vai quando se vai ao encontro de um psicanalista?

Se o sujeito procurar um analista é porque algo do automatismo cotidiano não anda como antes: um sofrimento subjetivo que surge na vida ou mesmo pela insistência de um sintoma enigmático, que já não é possível suportar como antes. Quando algo faz sofrer em um momento específico da vida, isso quer faz sofrer provoca “precisar falar”. O sujeito procura o analista para lidar com a urgência de não saber daquilo que traz o sofrimento. Como um enigma, a angústia, por vezes sem nome, sem significação, não deixa dúvida que Isso faz sofrer, ainda que não se saiba o que. Portanto, o sujeito bate à porta do analista para que Isso fale.

Há casos em que o próprio sujeito busca uma análise. Mas há também caos em que o sujeito é falado pelo Outro. Ao bater à porta do analista, busca encontrar algum sentido, uma vez que há uma aposta de que, nesse lugar, isso poderá se enredar outra vez. E é pelo encontro que o sentido surge como Isso que não faz sentido. Isto é, uma demanda diante do que irrompeu como angústia e urgência pode encontrar outra forma de ler, uma outra maneira.

Em Histórias Reais, a artista e escritora francesa Sophie Calle relata em um fragmento sobre seu primeiro encontro com um analista:

“Eu tinha 30 anos e meu pai achava que eu tinha mau hálito. Sem me perguntar, marcou uma consulta com um clínico geral que encontrou ao acaso. Eu fui. Assim que cheguei, pelo jeito dele, logo entendi que era um psicanalista. Sabendo da antipatia do meu pai por essa profissão, expliquei o mal-entendido: “Foi um engano. Meu pai acha que eu tenho mau hálito, mas ele me mandou ir a um clínico geral”. O psicanalista respondeu: “Você sempre faz o que seu pai manda?”. Eu virei paciente dele.”

No encadeamento da fala que se apresenta desde o primeiro encontro, o significante leva a outro significante, que desliza a outro numa cadeia metonímica, introduzindo uma rede de significante na narrativa, na busca de um saber sem fim. Ainda que a primeira entrevista possa vir a ser ou não um percurso de análise, há uma introdução pelo analista de uma interpretação que visa menos o sentido, mas sim localizar o gozo na fala.

No primeiro encontro, se produz um lugar, onde o analista pode se instalar. Lugar numa dimensão do inconsciente como real, tropeço e equívoco na fala, e não a priori como a instalação da transferência. Lugar que permite o “acontecimentos de um dizer”. Busca-se circunscrever o germe da instalação de um “modo de dizer” próprio à Psicanálise, introduzindo o mal-entendido desde a primeira entrevista e colocando os enunciados produzidos a cargo do inconsciente do sujeito. Sem a pretensão de ser “preliminar” a uma análise, a primeira entrevista pode funcionar como borda para o sujeito tomado por um mal-estar sem nome, proporcionando algum giro no modo como fala de si.

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