
Se queremos, como psicanalistas, “entrar” na cidade, tensionando nosso papel social, temos que experimentá-la “por dentro”, corporalmente, praticá-la na sua espacialidade, sem a mediação por um nome ou lugar simbólico. A vivência direta do corpo na cidade, essa corporeidade, tira do espaço urbano a ideia de ser um cenário desencarnado, de corpos mercadoria, imagem ou simulacro, produto da própria espetacularização contemporânea, de que nos fala Guy Debord, em A sociedade do espetáculo. A cidade “ganha corpo”, outro corpo, a partir do momento em que ela é praticada e apreendida. Daí vem a ideia de os próprios praticantes de Psicanálise do projeto Viravolta colarem lambe-lambes e distribuírem panfletos no centro da cidade. É um princípio de corporeidade, de incorporação, de relação do corpo com a ação, experiência corporal “outra”, como trabalha Paola Berenstein, em “Cenografias e corpografias urbanas: um diálogo sobre as relações entre corpo e cidade”.
Temos como referência a ideia de que no corpo do analista, esvaziado de gozo, pode encarnar-se o objeto a, o que torna o analista um objeto que se presta ao laço social. Mas, devemos perguntar, o que o Viravolta oferece na praça por meio da panfletagem feita pelos analistas já é um corpo? Seguramente não, pois não há ali a situação analítica que propicie o advento do analista, de modo a emprestar o corpo para ser o suporte de uma presença a serviço do ato. Se o analista entra em cena numa análise como sinthome, não mais encarnando o vazio da causa do desejo, mas os restos de gozo, seus restos sintomáticos − algo que aparece em seu corpo, presença mais ou menos discreta do Olhar e da Voz, corpo que se interpõe e evoca, para cada analisante, algo do parceiro-sintoma, ressoando em seu corpo −, como podemos falar desse corpo antes que se estabeleça uma transferência?
Corpo e ato ganham um lugar todo especial no último ensino de Lacan com uma ética menos ligada ao desejo, ao Outro, ao campo da linguagem; e mais ligada a um certo saber fazer com o gozo, ao que se passa no campo do Um sozinho. O Outro que não existe cede espaço ao corpo, que passa a entrar com tudo na jogada: gestos, alguns toques, o uso do olhar ou a ausência dele, as variações no tom de voz, desde o fundo silencioso de uma presença até um chamado dirigido aos gritos da janela do consultório… Se o objeto a se presta ao laço social, oferecemos, no mercado, o objeto-analista, sabendo, de antemão, que analista é função, na contingência, é relacional, é posição, um lugar que às vezes se materializa, às vezes não.

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