Lambendo a cidade

A Equipe do Viravolta, utilizando-se da reprodutibilidade da palavra para atrair pessoas para atendimento psicanalítico de urgência, se apropria da lógica comercial – ainda que não venda ou prometa nada −, que se vale de frases como “Compro ouro. Pago à vista em dinheiro”, “Faz-se amarração p/ o amor-próprio. Forte e definitiva” ou “Trago seu amor de volta”, para ocupar a cidade na dimensão gráfico-comunicacional, sobrepondo às camadas gráficas e às informações fragmentadas espalhadas pelas ruas lambe-lambes e panfletos, seja nos muros e nos postes ou no contato direto – sem palavras − com os passantes.

Há um entendimento de que participar da construção desse desordenado “texto coletivo” inclui o acaso e a falta de sentido, sem diálogo, uma vez que tudo está em trânsito ali, de passagem. O panfleto atravessa o ritmo dos corpos em movimento, estando sujeito a ser descartado sem leitura ou mesmo recusado. O lambe-lambe pode sofrer uma intervenção, sendo arrancado ou colado por cima na sequência de sua instalação por outra mensagem. A ação nesse circuito, portanto, é de uma recombinação transitória e indefinida, procurando alcançar, além de uma inserção no grid urbano – ou no alfabeto da cidade −, algum grau de surpresa, um momento de suspensão ou mudança de percepção no cotidiano, que faça com que a pessoa − diante da oferta: “Precisando falar? Pode vir. WhatsApp para agendamento: (31)984134191. @viravoltapsicanalise” – avalie sua demanda de escuta e procure o Viravolta.Mas por que utilizar as estratégias de “venda direta” e a mise-en-scène do discurso publicitário na divulgação do Viravolta, se não estamos unidos pelo contrato de compra/venda aos nossos futuros falantes?

Entendemos que, hoje, na vigência do discurso do capitalista, para acessar sujeitos que estão reduzidos à condição de consumidores, para oferecer algo, temos que nos valer desse semblant de anunciante, na figura do enunciador de um “produto”, por meio de lambes e panfletos, que tornam o leitor parceiro legítimo do enunciador. O “Pode vir” das nossas peças publicitárias – pouco diferente, estrategicamente, do “Trago seu amor de volta” ou qualquer anúncio comercial que conte com a competência do seu leitor quanto a saber da dimensão contemporânea da solidão e da sua dificuldade em ser ouvido – nos qualifica como aquele que tem o que oferecer a quem precisa falar, assim como quem se oferece, sem dúvida, como a solução para “amarrar o amor” ou trazê-lo de volta. Trata-se, no marketing, de influenciar o comportamento do “comprador”, com enunciados elocutivos e imperativos − “Compre aqui”, “Aproveite a promoção”, “Garanta agora”, “Vem” –, que por meio de um ethos preexistente, tentam despertar uma reação emotiva, o pathos desses sujeitos interpretantes. Para isso, lançam mão de elementos semânticos estratificados, de metáforas conhecidas, de imagens aceitas, de estereótipos que reforçam crenças, atitudes e valores comuns à sociedade em que se movem esses sujeitos.

Deixe um comentário