
O que um analista pode fazer quando é convocado com um limite de tempo, como pode atuar nos lugares onde se apresentam demandas de urgência e onde alguns encontros, quando não apenas um, serão a única oportunidade para aquele que necessita ser atendido em seu sofrimento, para obter uma resposta diferente daquela oferecida pelo mercado terapêutico?
Sabemos, com Lacan, no Seminário 19, que “não há entrada possível em análise sem entrevistas preliminares”, em sua função tanto na avaliação clínica quanto para localizar a significação que o sujeito dá, sob transferência, aos seus sintomas. Todo início deve garantir um passo, que articule a dimensão espaço-temporal num ponto − antes aqui, depois ali −, e uma porta que o próprio analista abra, numa aposta. Aqui nos interessa falar não da “entrada em análise”, mas da “entrada do analista”, apontando os efeitos da incidência de uma ética da diferença absoluta, ao localizar uma apresentação ao Inconsciente, um consentimento com a Outra cena e com a possibilidade de construção de espaço de trabalho psicanalítico.
A primeira entrevista pode circunscrever o germe da instalação de um “modo de dizer” próprio à psicanálise, como destaca Miller, em “Come iniziano le analisi”, introduzindo o mal-entendido e colocando os enunciados produzidos a cargo do Inconsciente do sujeito, mesmo fora do setting clássico, e sem que a transferência seja um ponto de partida e correlato da suposição de saber, mas uma parceira viva que se repete em corpo e ato, permitindo uma mudança na posição do sujeito como alguém que se refere ao que diz guardando certa distância com relação ao dito.

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